Prémio EuroInfoLiteracia 2016 – Melhor Ensaio: crónicas de Bruxelas...

Os três vencedores do Prémio EuroInfoLiteracia 2016, promovido pelo Centro de Documentação Europeia da Biblioteca e Gestão da Informação da Católica Porto que consistiu numa viagem de estudo às instituições da UE, em Bruxelas, partilham connosco a sua experiência, com a seguinte crónica:

 

Primeiro dia em Bruxelas

Embora a Bélgica não seja particularmente distante de Portugal, pouco após a aterragem em Bruxelas já é possível sentir que a atmosfera é diferente. Por entre uma arquitectura de tom decididamente germânico – muito mais próximo da “minha” atual cidade, Londres, do que da minha Lisboa natal – esconde-se uma panóplia de atividade, variedade e sensações. Começando pelo paladar! Francamente, porque é que alguém alguma vez há de lembrar Bruxelas pelas couves quando podia perfeitamente falar em “waffles de Bruxelas” é algo que nunca entenderei.

Dado que o primeiro dia da visita não tinha plano – sendo gentilmente cedido pelos organizadores do programa para nos dar tempo de conhecer a cidade – foi precisamente ao que nos dedicamos. Entre Google Maps, um mapa da cidade proveniente do hotel, e um bom francês contribuído por uma das participantes na visita, lá partimos à exploração. Apesar dos recursos de navegação disponíveis, não pudemos deixar de nos perder um pouco, o que se revelou somente uma excelente maneira de descobrir avenidas solenes, galerias envidraçadas e ruelas coloridas, aqui e ali pontuadas por edifícios singulares, do modesto ao grandioso. O apogeu desta caminhada foi, inevitavelmente, o Grand Place, a praça central para onde todos os turistas parecem convergir, querendo ou não. Não só esta praça dourada proporcionou algumas fotografias icónicas, foi também aqui onde provámos as maravilhosas waffles belgas (vale a pena referi-las novamente, porque são realmente algo de extraordinário!).

Prosseguindo a nossa walking tour improvisada, houve tempo para comprar lembranças (no meio das quais não faltaram os imperdíveis chocolates, após uma escolha difícil entre dezenas de chocolatarias), para “tropeçar” em pequenos parques escondidos, para dar com a Estação Central também algo por acaso, e por fim para jantar, novamente nas redondezas do Grand Place. Terminado o dia e começada a noite – sobremaneira ativa, tendo em conta que se tratava de uma terça-feira à noite em Outubro, chegou por fim a hora de rumar de volta ao hotel. Ainda nos aventurámos a regressar a pé (ignorando repetidamente os avisos de todos os trausentes a quem pedíamos indicações de que “é muito longe!”), mas acabámos por ceder à hora, ao cansaço, ao frio e à possibilidade de nos perdermos ainda mais completamente.  Mas até nesta cedência ganhámos qualquer coisa, uma vez que passamos a listar também no nosso itinerário uma viagem no metro de Bruxelas.

Findou assim o primeiro dia da viagem – e com ainda dois dias pela frente, já a vontade de voltar se instala subrepticiamente. Mas agora há que descansar, porque amanhã é dia da aguardada visita à Comissão Europeia! Boa noite. E tentem não sonhar com waffles.

Flávia Oliveira

 

Segundo dia em Bruxelas

No passado dia 4 de Outubro, desloquei-me, pela primeira vez, até ao centro da Europa, Bruxelas, no âmbito de uma atividade académica.
Quando lá cheguei, senti-me verdadeiramente pequeno perante toda a imensidão e imponência das instituições europeias, quer da comissão, quer do parlamento.
No segundo dia de viagem (5 de Outubro), foi-nos dada oportunidade de conhecer detalhadamente a comissão europeia, tendo-nos sido facultada a possibilidade de observar os estudos da mesma, conhecer a sala do Berlaymont em pleno funcionamento, e ainda - referiria inclusive como “highlight” do dia - ouvir relatos interessantes e na primeira pessoa acerca da política europeia.
Se tivesse de dizer o que mais me marcou naquela viagem, seria a perceção com que fiquei, porque não a tinha tão claramente definida, da velocidade galopante com que o conhecimento e as ideias avançam, como que se de uma realidade à parte se tratasse.
Fiquei profundamente sensibilizado com o projeto europeu, no qual revejo - não na prática, mas em termos idealísticos e preambulares - a comunhão de nacionalidades e culturas mais humana e progressista que o mundo já presenciou.
Após ter tomado contacto (mais) próximo com a realidade das instituições europeias, decidi pesquisar textos, artigos e até discursos de alguns dos 751 Euro-deputados e 28 Comissários. Entre todas essas intervenções, algumas das quais com posições antagónicas, encontrei um denominador comum a todas elas: todos os intervenientes, embora dotados de uma inteligência rara e um conhecimento invulgar, parecem verdadeiramente humildes e, sobretudo, cientes e recetícios quanto à refutabilidade dos seus argumentos. Isto porque, melhor do que ninguém, estes têm a plena noção de que num mundo como o atual, em que a realidade se (re)constrói a cada momento e tudo está constantemente permeável a transformações, não existem argumentos absolutos ou irrefutáveis, posições totalmente inflexíveis ou reflexos de sensatez e de sentido de justiça numa só pessoa. Em virtude disso, esta viagem só me fez confirmar que, quanto maior é o conhecimento de alguém, maior é a sua humildade e disponibilidade para ouvir outras posições e, em conformidade com essas, quando necessário, alterar a sua. Geralmente, quanto mais se sabe, maior é a noção que se tem de si, é um facto. No entanto, mesmo que se tenha plena noção de si, por muito importante que alguém seja, o seu impacto a uma escala global será nulo ou, pelo menos, muito reduzido. Citando um Professor meu, pelo qual tenho grande consideração, “Por muito importante que seja a opinião de alguém, não deixa jamais de ser a opinião de alguém”. Por esse motivo, se a frase “Só sei que nada sei” fazia algum sentido para mim, doravante fará todo.
Conhecimento e progresso, duas realidades jamais totalmente percorríveis.

Miguel Seara

 

Terceiro dia em Bruxelas

Empurrei a minha mala para a sala dos arrumos do hotel sem olhar para ela, já que calculei que teria o ar desafiador de quem diz: “vais ter que voltar para me vir buscar”. E eu, que ficaria eternamente a passear pelas ruas de Bruxelas, elegantes e misteriosas, com as suas fachadas típicas, mas diferentes entre si, e as grandes janelas para captar o "sol" belga, não queria sequer pensar no momento da partida. Apesar de serem ainda os primeiros dias de Outubro, a quantidade de frio era já equivalente ao número de lojas de waffles e de chocolates, à variedade de cerveja, às músicas de esquina, às obras de street-art, aos imponentes jardins, mas também ao número de polícias que passavam armados.

Depois de um grande pequeno almoço no hotel, dirigimo-nos em bando, entre gargalhadas e conversas divertidas, para o Parlamento Europeu, onde fomos muito bem recebidos pelo Senhor Dr. António Vale. Começou por nos explicar o funcionamento das instituições europeias, numa abordagem muito prática e interessante. Apesar de já ter tido a cadeira de “Direito da União Europeia”, a perspetiva muda quando estamos mesmo lá, e pensamos na vida atribulada de um deputado, que tanto está em Bruxelas para reuniões e comissões parlamentares, como também se desloca a Estrasburgo (cerca de 4 dias por mês) para realizar as sessões plenárias.

Entrámos de seguida na sala do Parlamento, onde comecei a ver as cadeiras a ocupar-se por pessoas da nossa idade. Perplexa, pensei em mil explicações possíveis, entre as quais a hipótese de os deputados poderem ser representados por assistentes, mas nenhuma fazia sentido. Foi então que me apercebi de que estávamos na sessão de abertura dos estágios na União Europeia, o que foi curioso porque ainda pudemos ver um pequeno vídeo feito para jovens acerca das iniciativas da instituição.

Saímos do Parlamento ainda a tempo de visitar o interativo Parlamentarium. Marcou-me um corredor com imagens representativas dos acontecimentos mais emblemáticos da EU desde a sua instituição até ao Brexit, que terminava com uma projeção da data atual com os segundos a correr, e que nos fazia sentir realmente parte da História. Também pudemos “passear” pela Europa, através de umas câmaras que se deslocavam sobre as várias cidades e indicavam factos interessantes sobre cada uma delas, e sentarmo-nos na primeira fila, no centro do Hemiciclo.

Depois de um almoço descontraído, em que as conversas já soavam nostálgicas, tivemos de vir embora. Eles despediram-se do frio, e eu ouvi falar Português pela última vez, apanhando um comboio para a minha terra de Erasmus - mas não sem antes ir buscar a minha mala.

Joana Faria